Força-tarefa da Polícia Civil identificou que o Comando Vermelho ganhou espaço no Acre

Com medo de represálias do CV, Juiz que autorizou operação que prendeu tenente do BOPE preferiu tomar decisão com colegiado de magistrados

 

As investigações que desencadearam a Operação Sicário, que prendeu preventivamente membros do Comando Vermelho e o tenente do BOPE, Josemar Barbosa de Farias, nesta semana, foram comandadas por uma força-tarefa entre a Divisão de Investigações Criminais (DIC) e a Delegacia de Combate ao Crime Organizado (DECCO). Os delegados Alcino Junior, Pedro Paulo Buzolin, Sergio Lopes e Martin Hessel chefiaram os trabalhos e representaram junto a justiça pela decretação preventiva de 29 pessoas e também sobre dezenas de buscas e apreensões em Rio Branco, Cruzeiro do Sul e Plácido de Castro.

As investigações chefiadas pela força-tarefa da polícia civil foram baseadas em um vasto acervo probatório subsidiado por meio de interceptações telefônicas autorizadas pela justiça, além de pesquisas, diligências de campo e prisões em flagrante que possibilitaram o cruzamento de dados e a identificação de vários integrantes do Comando Vermelho com atuação no Estado.

De acordo com os autos obtidos com exclusividade pelo ac24horas, as autoridades policiais focaram a investigação no primeiro quadrimestre de 2018, quando um intenso processo de disputa por território pelas facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Bonde dos 13 (B13) contra o Comando Vermelho (CV), período em que foram contabilizadas centenas de execuções e tentativas de homicídios, a partir da “tomada”, pelo CV, de pontos e rotas estratégicas para o recebimento de drogas dos países vizinhos, assim como a revenda na periferia de Rio Branco. O levantamento policial revelou um real crescimento da facção

Comando Vermelho, concentrado principalmente nos primeiros 8 meses do ano de 2018 seja pela atuação do Estado protagonizando prisões importantes de lideranças de outras facções, seja pela morte de vários membros de outras facções, assim como a própria saída de membros de grupos criminosos.

Ainda segundo as investigações dos delegados, os indícios evidenciaram apoio permanente, ofertado por membros da cúpula da segurança pública, Forças Armadas e até mesmo segurança privada ao CV, concedendo proteção nas regiões sob o domínio do grupo, de modo a atuar visando combater as facções rivais em troca de favores e benefícios, além de instruções a faccionados, sobre o modus operandi das polícias estaduais, condutas que contribuíram para o crescimento vertiginoso das atividades do Comando Vermelho no período da investigação.

Apesar de todo o conteúdo disponibilizado, chamou atenção no despacho de 32 páginas que autorizou a operação trecho em que juiz Raimundo Nonato da Costa, titular da 3ª Vara Criminal, ao analisar o preocupante cenário em que o crime organizado criou uma espécie de “poder paralelo” à sombra das Instituições, devido os autos do processo terem sido distribuídos originalmente a ele,  entendeu que haveria risco à sua integridade física caso as decisões relacionadas ao processo fossem proferidas apenas por ele, razão pela qual, nos termos da Lei nº 12.694/2012, decidiu instaurar o procedimento de julgamento colegiado para a prática de atos judiciais relacionados aos presentes autos incidentais bem como para os demais atos que decorrerem do processo.

Nonato encaminhou a referida decisão ao presidente da Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Acre, Desembargador Samoel Evangelista, autoridade competente para a realização do sorteio dos outros dois membros que comporiam o órgão colegiado dentre os juízes de direito com competência criminal em exercício no primeiro grau de jurisdição, de modo que o sorteio recaiu sobre os Magistrados Guilherme Aparecido do Nascimento Fraga e Maria Rosinete dos Reis Silva (membros titulares) e Ivete Tabalipa e Danniel Gustavo Bomfim Araújo da Silva (membros suplentes), tento que a decisão da operação foi assinada pelo trio de magistrados titulares.