“O PT está mais vivo do que muitos pensam”, diz professora e nova presidente do partido na capital

ACJORNAL

Selma Neves assume a presidência do PT, faz autocrítica e diz que o partido está mais vivo do que muitos imaginam
“Um dos principais erros do PT foi ter direções que não dirigiam. Quem dirigia era quem estava de fora”
“Muitos que estavam na linha de frente achavam que o PT iria ficar no poder eternamente”
“Não se surpreenda se o PT apresentar nomes novos para prefeito. No entanto, quem vai decidir sobre isso será a Frente Popular”

Por Jorge Natal

Até na sua gênese o PT é emblemático. Para alguns, era o partido dos sonhos porque não era de direita nem comunista propriamente dito, ou seja, desde o nascimento defendeu o socialismo democrático. Para outros, o “ovo da serpente” que foi gerado pela iminência parda do Regime Militar, o general Golbery do Couto e Silva, com o intuito de impedir que Brizola chegasse ao poder. Este, sim, teria compromisso com as camadas populares.
Controvérsias à parte, o PT achou campo fértil para se enraizar na sociedade brasileira: era formado por intelectuais e trabalhadores (urbanos e rurais) e tinha forte inserção popular, notadamente nas comunidades eclesiais de base, movimento comunitário, sindicatos e no movimento estudantil. E se distinguia das demais legendas tanto pelo discurso como pela prática política. Chegou a expulsar a metade de sua bancada por esta ter votado em Trancredo Neves no Colégio Eleitoral.
Depois das sucessivas derrotas presidenciais (1989/1994/1998), o PT muda a sua práxis e Lula da Silva finalmente chega ao poder com o apoio das elites. Com um víeis conservador e populista, e depois tutelador de pobres, tornou-se o segundo maior partido do mundo, atrás apenas do partido comunista chinês.
Oriunda da Igreja Católica e filiada desde 1986, a professora de história Selma Neves, de 53 anos, é o que podemos chamar de petista de raiz. Testemunhou muitas histórias em todos esses anos. Algumas delas inusitadas como, por exemplo, a vinda ao Acre de José Dirceu em 1987. Viera expulsar o então militante Reginaldo de Castela, que estava armando seringueiros no município Xapuri, numa tática de guerrilha conhecida como maoísmo. Dois anos antes, chegou a participar de um “empate” no Seringal Catuaba.

Desde a primeira administração petista (Prefeitura de Rio Branco 1993/1996), a dirigente percebeu uma anomalia que se consolidou nos 20 anos do governo estadual: não existia nenhuma sintonia da direção partidária com os petistas gestores. Trocando em miúdos: embora a legenda fosse poder, não colocava em prática aquilo que os seus documentos apregoavam.

Eleita para dirigir o partido na Capital e comandar nas eleições do próximo ano, Selma Neves quer achar o elo perdido e vislumbra construir uma nova história. “Cometemos erros vitais, porém deixamos a nossa marca na política acreana”, afirmou a militante, para quem o PT está mais vivo do que muitos imaginam. “Continuamos sendo o partido da esperança e da justiça social”, acrescentou.
Quando o assunto é sucessão municipal, Selma Neves desconversa dizendo que o PT irá apresentar nomes, deixando apenas escapar que Jorge Viana será preservado para as eleições de 2022. “Eu sua residência, ela recebeu a equipe do AC Jornal e fez uma autocrítica, coisa que jamais passa pelas cabeças dos caciques. Veja os principais trechos da entrevista:

AC Jornal – Como a senhora avalia a primeira administração petista na prefeitura de Rio Branco?
Selma Neves – Naquela época foi um achado. Rio Branco era uma cidade desprovida de praticamente tudo. O PT preparou o Jorge Viana para ser gestor. E quando alguém com o perfil dele assume, bom, para mim, foi um dos melhores prefeitos do Acre. Ele conseguiu ganhar a opinião pública e, dois anos depois do fim do mandato, tornou-se governador.

AC Jornal – Isso foi em primeiro de janeiro de 1999. Como a senhora se sentiu naquele momento?
Selma Neves – A gente sabia que um dia poderíamos chegar ao poder, mas não tão rápido. Aquelas eleições tiveram um ingrediente interessante: conseguimos nos aliar a um partido que era o nosso principal adversário no plano nacional – o PSDB. Quem tem acima de 40 anos de idade viu como era o Acre antes e depois do governo do Jorge Viana. O Acre se ressentia de tudo e ele elevou a estima da nossa gente. As instituições passaram a funcionar e o movimento social teve voz e vez. Todos os governos passados diziam que não existiam recursos. Além de ter sido um excelente gestor, ele preparou o terreno para as outras administrações petistas.

AC Jornal – E os governos de Binho Marques e Tião Viana?
Selma Neves – Antes, no segundo governo do Jorge, nós chegamos à presidência da República. Foi o melhor momento do PT no Acre. O sonho de todo acreano era a construção da BR 364. Foi o Jorge quem foi buscar os recursos que foram liberados apenas no governo do Binho. Este executou, mas aquele preparou o alicerce. O Binho valorizou as pessoas do movimento social. No governo dele se falava em controle social, participação popular e cidadania. Outras marcas foram as ações sem personalismo e a democracia. Eu outros governos, a gente só fazia o que o chefe determinava. O governo do Tião foi o mais difícil. Além da crise econômica, o PT já sofria muito com o desgaste. O foco dele era o agronegócio e a industrialização. Alguns desses empreendimentos deram certos e outros não. Antes do PT, a economia acreana se movida apenas pelo contracheque.

AC Jornal – Quais foram os principais erros que o PT cometeu?
Selma Neves – Um dos principais erros do PT foi ter direções que não dirigiam. Quem dirigia era quem estava de fora. O partido está fazendo essa avaliação. Porém, só erra quem faz. Nestes últimos tempos, nós acumulamos o desgaste do PT nacional e local. Tivemos dificuldades em agradar o funcionalismo público, que é estratégico nesse processo. Muitos que estavam na linha de frente achavam que o PT iria ficar no poder eternamente. As reivindicações e anseios da população mudaram e não enxergamos isso. Alguns de nós até pensávamos que poderíamos perder as eleições, mas sermos praticamente varridos? As pessoas não votaram no Bolsanaro ou no Gladson Camei. Elas votaram contra o PT. Ah, o PT não fortaleceu o movimento social e isso enfraqueceu o partido.

AC Jornal – Como a senhora avalia o governo de Gladson Cameli?
Selma Neves – Ainda é muito cedo para se fazer uma avaliação isenta. Mas a eleição dele, com certeza, foi com o voto do anti-petismo. O eleitorado jovem não conheceu o nosso legado e isso também criou dificuldades. O governador tem um projeto diferente do nosso. O projeto da direita inclui a saída da esquerda e seu maior partido, que é o PT. Continuamos sendo o maior partido do Brasil e do Acre. O foco da direita é destruir o PT. Para isso, tiveram que tirar a Dilma, prender o Lula e criminalizar o PT.

AC Jornal – A senhora acredita que as bandeiras do PT ainda possam ecoar na sociedade?
Selma Neves – Eu não tenho dúvidas. Muitas pessoas que votaram no Bolsonaro já estão arrependidas. O Lula fez uma coisa que nenhum presidente da República conseguiu: resgatar a auto-estima do pobre, dando-lhe oportunidades. A gente só ouviu falar em respeito ao negro e às mulheres nos governos petistas. Também criamos a Lei Maria da Penha, o Estatuto da Criança e Adolescente, as lutas pelas minorias de orientação sexual diferente. Parece contraditório, mas foi nos governos do PT que o Polícia Federal, o MP e outras instituições tiveram mais autonomia para atuar.

AC Jornal – O PT vai lançar candidato a prefeito em Rio Branco? Quais são os nomes mais cotados?
Selma Neves – Estamos em processo de discussão. Quando se cogitam nomes, muitos lembram apenas do Jorge e Angelim. No entanto, não se surpreenda se o PT apresentar novos nomes. A prefeita Socorro Neri e o partido que ela integra fazem parte do nosso campo. Não podemos impor candidato sem discutir com todas as forças política da Frente Popular. Como é de conhecimento público, os nomes cogitados até aqui são o da prefeita, o do Jorge e do Angelim.

AC Jornal – O PT não criou um modelo econômico capaz de gerar riquezas e distribuí-las. As conseqüências estão na escalada da violência, no aumento do abismo entre ricos e pobres e na degradação ambiental, entre outras mazelas. Comete sobre isso?
Selma Neves – Tanto em nível nacional como local existem bandeiras de esquerda. O meio ambiente, por exemplo, nunca fez parte da agenda da direita. Da mesma forma as pautas das mulheres, dos negros, homossexuais, a valorização dos movimentos sociais e a juventude. O PT deu voz para setores historicamente marginalizados pela classe política. Este é legado do PT. No tocante à questão econômica, o não desenvolvimento é problema da Região Norte. Mas nós fizemos muitas coisas, senão vejamos: criamos a fábrica Dom Porquito, a Peixe da Amazônia e a Acre Aves. Tu achas que esses supermercados e universidades, que se instalaram aqui, não fazem parte desse novo momento do Acre? O nosso estado hoje é diferente, cresceu e pessoas de fora estão vindo morar aqui. Nós tivemos apenas 20 anos. A direita estava no poder desde a formação do nosso território. Existiam mil mazelas e ninguém dava tanta notoriedade. O PT não é o responsável por todas as adversidades do Acre. A violência, por exemplo, é no Brasil inteiro. Outra coisa: o que o Cameli está inaugurando não é só mérito dele.

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