Reforma: os mesmos políticos que criticavam o PT por excesso de CECs são os que cobram Gladson por cargos

Governador Gladson Cameli

Em pouco menos de 5 meses o governador do Acre, Gladson Cameli (PP), enviou um projeto de reforma administrativa, enxugando a máquina pública, reduzindo em mais de 60% o número de cargos comissionados, sofreu pressão por cargos, enviou outro projeto e conseguiu a proeza de fazer a reforma da sua própria reforma.

O executivo tornou confuso e desgastante o que era desnecessário. Gladson cometeu o erro de começar seu governo tentando ser populista e agradar as vozes de velhas raposas da política disfarçadas de ativistas das redes sociais. Os próprios membros dos partidos que compõem o governo foram os defensores de um Estado mais austero e não pouparam críticas e palavras condenatórias ao modelo que foi adotado pelo Partido dos Trabalhadores nos últimos anos.

Gladson comprou o discurso de bons moços que queriam o melhor para o estado e cortou cargos, reduziu secretarias e levou o princípio da austeridade a sério. O preço chegou em forma de perturbação diuturna e ameaças de instabilidade na governabilidade.

O discurso em redes sociais das tais lideranças do grupo de Gladson sobre a tal austeridade era tão falso quanto uma nota de 3 reais. O que Gladson não sabia na época da primeira reforma é que os mesmos moralistas que defendiam o enxugamento da máquina pública sob argumento de economizar recursos eram os mesmos que iriam pressionar o governador de todas as formas possíveis e imagináveis em busca dos famosos cargos em comissão (CECs).

Ao anunciar a reforma administrativa, a primeira, em janeiro, o governador tentou agradar um discurso populista e hipócrita infiltrado das redes sociais que dizia que o enxugamento da máquina pública era a saída. Legítimo o discurso e melhor o seria se por trás não houvesse centenas de pessoas na corrida pelos cargos, alguns, inclusive, paladinos da moralidade no Facebook e outras redes.

Gladson, orientado por assessores movidos pela emoção, reduziu o número de secretarias de 22 para 15 e extinguiu cerca de 1.300 cargos comissionados sob uma promessa de economia de R$ 90 milhões. O resultado foram 5 meses perdidos e sabe-se lá quantos milhões de reais. O governador não conseguiu governar e passou a viver de demandas de balcão levada por deputados e apoiadores ávidos por cargos comissionados. O governador ficou sem governabilidade, sem condições de manter sua base que precisa dos cargos para manter suas próprias bases. É horrível admitir, mas, sim, o Acre vive em torno do paternalismo governamental e Gladson precisou de uma reforma da reforma para começar efetivamente a governar.

A verdade é após mais de 20 anos fora do poder os paladinos da moralidade dos partidos ligados a Gladson, que eram oposição aos governos petistas, adoram em uníssono o discurso de aparelhamento da máquina, excessos de cargos e pregaram uma austeridade que eles mesmos não conseguiram suportar por 5 meses. As mesmas pessoas que pregavam que o PT tinha muitos cargos comissionados e que precisavam ser extintos são as pessoas que pressionaram o governador e não o deixaram trabalhar em busca de CECs nesses últimos meses.

O que deveria haver era um discurso realista de que a reforma de austeridade feita por Gladson, atendendo pedidos dos líderes da então oposição, não funcionou simplesmente porque o discurso dos caras era apenas para inglês ver. Na hora de ficarem sem cargos eles esqueceram o discurso populista e começaram o ‘fogo amigo’ contra o governador e o chefe da Casa Civil, José Ribamar. Agora eles terão a reforma da reforma e deveriam pagar o preço do desgaste político disso e não apenas empurrar a fatura ao governador. Se os deputados populistas, presidentes de partidos e filiados foram às redes sociais pedir uma reforma austera deveriam ter aguentado quando não tiveram seus pedidos atendidos. Se não dormiram 5 meses por falta de cargos e sequer deixaram o governador trabalhar deveriam agora reconhecer que o discurso era populismo barato e que preferem trocar a tão falada ética que diziam ter acima do PT pelos cargos em comissão.

A reforma da reforma, essa que criará 450 novos cargos e causará desgaste à imagem de um governo recém-nascido poderia ter sido evitada se tivessem optado por governar sem populismo e com um pé na realidade. Ninguém governa sem cargos e governador algum, nem o maior iluminado, conseguirá manter uma base de apoio coesa na Assembleia Legislativa se não negociar espaços de cargos com os deputados. É nojento, mas é real. Se esconder da realidade só trará mais problemas. A reforma da reforma é o que de pior poderia acontecer.