Polícia aguarda laudo para saber se adolescente que confessou matar tia a facadas agiu sozinha

Maria Antonieta foi assassinada em Feijó no final de janeiro — Foto: Arquivo pessoal

Maria Antonieta foi assassinada em Feijó no final de janeiro — Foto: Arquivo pessoal

A Polícia Civil ainda aguarda o laudo da perícia feita no celular de um jovem que se relacionava com a adolescente de 14 anos apontada como a responsável pela morte da tia, Maria Antonieta de Souza Abreu, de 38 anos. Esse laudo vai dizer se a adolescente teve ou não a ajuda de alguém para cometer o crime.

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Maria Antonieta foi morta a facadas e com golpes de panela de pressão na cidade de Feijó, interior do Acre. A tragédia familiar ocorreu no dia 24 de janeiro e chocou a cidade.

Mensagens de texto trocadas entre a menor e esse jovem apontam também que Maria Antonieta pode ter sido envenenada pela sobrinha antes da morte. Ela teria tomado veneno de rato.

O delegado responsável pelas investigações, Railson Ferreira, explicou, nessa segunda-feira (14), que falta apenas esse laudo para concluir o inquérito. Sem esse resultado, a polícia, segundo o delegado, não consegue confirmar se o rapaz teve ou não participação no crime.

Segundo ele, a expectativa é de que esse laudo fique pronto nos próximos dias.

“Já estou com um laudo pronto desde a semana passada, mas o último [laudo] está dando muito trabalho e o perito falou que tentou por um sistema, mas não conseguiu e vai tentar outro”, resumiu.

No início dos trabalhos investigativos, a polícia descobriu que a menor trocava mensagem com apenas uma pessoa, um jovem de 21 anos com quem ela se relacionava. Essa pessoa foi ouvida pelo delegado e liberada para aguardar as investigações em liberdade.

Envenenamento

A Polícia Civil soube do veneno após olhar o celular da menor, quando ela já tinha sido levada para uma unidade socioeducativa do estado.

Na época, a menor falou que deu veneno para a tia, mas a quantidade foi pouca e ela iria matá-la.

“Não é suspeita, para mim, está confirmado. Só mandei o laudo por questão de protocolo. Têm as mensagens no celular dela e o veneno que apreendemos. Para mim, é 100% verdadeiro e ela omitiu. Como não tinha esse dado quando a ouvi, não tinha como confrontá-la. Quando ela foi para a unidade [centro socioeducativo], só vim ter conhecido [do veneno] depois. A gente não tinha tido tempo para olhar o material apreendido e quando foi no final da tarde me deparei com o celular e fui olhar. As mensagens têm tudo, que vai matar, que deu veneno. Dentro da bolsa estava o veneno”, destacou.

A menor foi apreendida pela Polícia Civil ainda na noite de 24 de janeiro, horas após o crime, e confessou ter matado a tia. Segundo as investigações, a adolescente primeiro rendeu o primo de 10 anos, desferiu golpes de faca contra ele, o trancou em um quarto e partiu para cima da tia. O menino ficou com ferimentos na região do pescoço.

Mesmo com a certeza do envenenamento, a polícia aguardava o laudo da perícia. Após saber do envenenamento, o delegado confirmou que não iria pedir a exumação do corpo de Maria Antonieta.

“Não vamos pedir porque há a prova do celular que pedi autorização e vai para a perícia. O objeto que ela diz ter usado, que era o chumbinho, que é veneno de rato, por coincidência estava na bolsa dela e foi apreendido. Mandei para análise e vou confrontado como o depoimento dela, que tenho certeza que vai confirmar porque ela é muito verdadeira. Não precisa exumar, é muito trágico, e não tem essa necessidade”, argumentou.

Outro ponto que precisava ficar claro, segundo o delegado, é quem forneceu o veneno para a menor.

“Estamos em dúvida se houve o fornecimento por outra pessoa. É muito cedo para dizer se houve ou não participação dessa pessoa. Eu, inicialmente, acreditava que sim pelas mensagens, porque tem umas mensagens que direcionam para essa pessoa. Só conversa com essa pessoa. Mas, fiquei na dúvida e peguei os dois celulares e mandei para a perícia”, disse.

Crime planejado

Após cometer o crime, a adolescente saiu de casa normalmente e cerca de uma hora depois se apresentou no quartel da polícia. O delegado afirmou que ela demonstrou frieza ao confirmar que tinha matado a tia.

Após o assassinato, a polícia achou um diário em que adolescente escrevia sobre morte, indicando a pretensão da menina.

“Ela conta com uma tranquilidade… Disse que não havia uma preparação. Sobre o diário que encontramos, ela disse que era porque ela cultua a morte, que gosta. Mas, acredito que havia, sim, um planejamento”, disse o delegado.

“Foram muitas facadas e ela bateu demais com a panela na cabeça da tia. A faca ficou cravada na vítima. Nunca tinha visto tanto sangue na minha vida. Ela disse que foi porque a tia pegava no pé dela, não deixava ela sair, não deixava namorar. Mas eu não acredito nisso”, completou Ferreira.

Inicialmente, a suspeita era de que a menina teve ajuda de outra pessoa para cometer o crime. No entanto, de acordo com o delegado, a vítima estava com dengue e isso pode ter facilitado que a adolescente tenha conseguido matá-la sozinha.

A adolescente estava dormindo na casa da tia havia alguns dias porque a mãe dela está viajando. Ainda segundo o delegado, era uma família tranquila e que vivia em harmonia.

“Havia uma relação harmônica entre as partes e o que chama atenção é o planejamento da adolescente. O crime não foi impulsivo, um ataque, foi algo planejado. Tem um diário que ela escrevia sobre o sofrimento dela, da rebeldia, que a família não vai gostar do que ela fizer. Ela dá indícios de que mataria alguém ou se mataria, mas nada referente ao caso especificamente. Então, para o caso em investigação não vai servir [como elemento de prova]”, disse.

Menina disse que não se arrepende

Em depoimento na delegacia, a menina contou em detalhes como tudo aconteceu. Segundo o delegado, ela disse que desde que a mãe viajou ela passava o dia em casa e durante a noite ia dormir na casa da tia, que ficava bem na frente.

Cerca de duas horas antes de ir até a casa da tia, ela contou que começou a planejar o crime. Foi então que por volta das 18h foi para a casa da vítima já levando uma faca nas mãos. Ela disse que chegou, sentou com o primo para assistir televisão e, após um tempo, quando o menino foi até o quarto, ela o acompanhou e iniciou as agressões.

Primeiro, ela tentou conter o menino e foi quando acabou desferindo golpes de faca no pescoço dele. Em seguida, o amarrou com um cinto e o deixou trancado dentro do quarto. Como a faca que ela usou contra o primo quebrou, ela foi até a cozinha, pegou outra faca e se dirigiu ao quarto da tia, que estava deitada na cama de costas para a porta.

Após crime, menina deixou bilhete sujo de sangue na casa da tia — Foto: Arquivo/PC-AC

Após crime, menina deixou bilhete sujo de sangue na casa da tia — Foto: Arquivo/PC-AC

“Aproveitando que a tia não a viu, porque estava deitada, ela esfaqueou exatamente na região da jugular. Ela disse que não lembra quantos golpes deu em sequência. Elas entraram em luta corporal e então saíram do quarto e foram para a sala, continuaram brigando e depois foram para cozinha, onde jogaram cadeiras uma contra a outra. Até que em determinado momento, a vítima escorregou e a menina aproveitou e deu mais facadas e pegou uma panela de pressão e começou a golpear a cabeça da tia. A panela chegou a amassar com os golpes”, relatou o delegado.

Após o crime, a menina chegou a deixar um bilhete sujo de sangue dizendo “Eu estive aqui” e com o desenho de um coração.

“Ela disse que não se arrepende, que a motivação seria porque não gostava da tia, que ela não a deixava sair, em que pese que as pessoas achavam que elas tinham uma boa relação. Ela disse que fez totalmente consciente, que quis matar a tia, que não se arrepende e faria tudo de novo.”

Família em choque

No dia seguinte ao crime, dia 25 de janeiro, uma das sobrinhas de Maria Antonieta conversou com o g1 e revelou o choque da família com o crime. Segundo a sobrinha da atendente, a menor nunca demonstrou raiva da tia, sempre foi tranquila, criada na igreja e só saía para ir para a escola.

A jovem relatou ainda que nunca percebeu nenhum comportamento estranho na prima.

“Sempre foi tranquila, [saía] de casa para a igreja ou para a escola. Sempre foi muito educada, inteligente e a família está bastante em choque dessa reação que ela teve. A mãe dela criou ela sem aquela liberdade de filho na rua, sem amizades, protegendo. A mãe dela foi fazer uma viagem e pediu para a tia Antonieta ficar responsável por ela. No que ganhou esse pouquinho de liberdade na casa da tia achou que poderia sair, começou a pedir para sair de noite e a tia estranhou”, lamentou.

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