Professor surdo é o 1º a defender dissertação de mestrado traduzida em libras no AC: ‘quebra de paradigmas’

Um dia marcado por um misto de emoções. Assim foi esta quinta-feira (26) para o professor João Renato Júnior, de 38 anos. Ele foi o primeiro surdo a defender uma dissertação de mestrado traduzida em libras, a linguagem brasileira de sinais e recebeu o título de mestre em educação pela Universidade Federal do Acre (Ufac).

“É mistura de nervosismo, felicidade e ansiedade. Uma mistura de tudo um pouco, porque penso que depois de hoje, quando terminar, acredito que os rumos da educação, a nível de pós-graduação, vai mudar aqui no Acre. Os próprios professores, a coordenação do PPGE [Programa de Pós-Graduação em Educação], intérpretes que me auxiliaram, todos viram que é possível ter um aluno surdo dentro da sala de aula sem o medo de dar aula pra surdo. A gente só quer participar como as outras pessoas”, disse.

Formado em Letras Português, Júnior tem especialização em ensino de libras e concluiu o sonhado mestrado em educação após um período de quase dois anos no processo de pesquisa. Ele foi o segundo a fazer a defesa em uma turma de mais de 30 alunos.

O professor é surdo desde a infância. Ele conta que os pais relatam que a surdez surgiu após uma forte febre que teve ainda aos quatro meses de vida e, desde então, deixou de ouvir.

Contribuição

Contribuir no âmbito pessoal, acadêmico e pessoal são os pontos que ele destaca como principais motivações para esta etapa da vida e formação. Por isso o tema da dissertação é : “O que esta surda está fazendo aqui?” Trajetórias, desafios e perspectivas na formação de professores surdos, em Rio Branco, Acre.

A dissertação trata da formação dos professores surdos na capital e traz a reconstrução da história de formação de seis surdos. Para fazer a defesa, ele contou com o apoio de três intérpretes, do companheiro Israel Queiroz, que também é intérprete e fez a versão voz. Além do auxílio do professor doutor Alexandre Melo de Sousa, orientador dele nessa empreitada.

“’O que essa surda veio fazer aqui?’ é a história de uma das participantes da pesquisa que quando foi para a escola, fez a leitura labial do diretor, que disse essa frase. É como se ela, formada para dar aulas para surdos, fosse inferior aos professores ouvintes. E uma das propostas é mostrar que professores surdos e ouvintes são professores e não importa quem é o formador”, pontuou.

João Renato Júnior fez a defesa da dissertação de mestrado nesta quinta-feira (26) — Foto: Arquivo pessoal

João Renato Júnior fez a defesa da dissertação de mestrado nesta quinta-feira (26) — Foto: Arquivo pessoal

Desafios

O professor disse que as falas dos participantes que fizeram parte do projeto se misturam com a própria a história profissional dele, enquanto professor, em pelo menos três pontos.

“No âmbito pessoal, porque me identifico com os participantes. Acadêmico porque é uma pesquisa sem precedentes, ou seja, sem material específico que trate desse assunto. Então, essa pesquisa será base para outros pesquisadores surdos e ouvintes possam entender como se delineia o processo de formação de professores surdos. No âmbito social, no qual o que a gente espera é a visibilidade e o respeito, valorização dos professores surdos.”

“Porque também temos formações superiores, desde o inicial, a especialização a nível de pós-graduação, mestrado e doutorado e porque somos invisíveis a ponto de só os professores ouvintes serem vistos e nós não se temos os mesmos níveis de formação”, explicou.

A defesa ocorreu de forma presencial, na Ufac, mas com a banca examinadora de fora do estado, que participou de forma on-line da apresentação. Para o professor, ser o primeiro a fazer a defesa em libras, espera que este seja um marco para mudanças nas avaliações futuras.

“Por eu ser surdo, defender essa temática toda em libras, espero que o programa PPGE repense nos seus métodos de avaliações, que promovam provas em língua de sinais para que outros surdos possam concorrer ao mestrado, porque temos muitos professores com especialização, mas mestrado e doutorado não. Então, vim para quebrar paradigmas e mostrar para outros surdos que é possível entrarmos em qualquer etapa de ensino de formação”, acrescentou.

João Renato diz que teve um misto de emoções ao apresentar tese  — Foto: Arquivo pessoal

João Renato diz que teve um misto de emoções ao apresentar tese — Foto: Arquivo pessoal

1º aluno do programa

O professor doutor Alexandre Melo de Sousa, que foi quem orientou João Renato durante o mestrado, reforçou que ele é o primeiro mestrando surdo do Programa de Pós-Graduação em Educação da Ufac e contou com uma logística para que ele pudesse ter êxito em todo o processo.

“Até então, nós tínhamos várias pessoas que trabalhavam com temáticas, desenvolveram pesquisas que envolviam surdos, mas o João Renato foi o primeiro surdo a entrar. E o processo de entrada dele já teve toda uma logística de preparação para respeitar as especificidades da pessoa surda, especialmente no com relação a prova dele”, contou.

Para fazer a prova, o professor contou com a presença de intérpretes na prova escrita e também teve a correção feita por especialistas que trabalham com o português como segunda língua para surdos. Foram seguidos critérios de correção respeitados a partir da primeira língua dele que é a de sinais.

“Ele teve, durante todo o mestrado, várias disciplinas que abordaram vários temas sobre educação e sempre havia a presença de intérpretes para ter esse conforto linguístico entre o surdo e o professor. Da minha parte como orientador, o João sempre apresentou muita responsabilidade em relação aos textos que eram passados para ele, os projetos”, pontuou o orientador.

Como a dissertação é escrita toda usando a língua portuguesa, o projeto foi produzido com a gravação dos vídeos e discussão teórica em libras e vídeos e depois passado para a língua portuguesa.

“Ao trabalhar com esse tema, ele dá a justamente a visibilidade e protagonismo ao sujeito surdo para que ele se coloque falando como foi sua formação, quais foram as dificuldades e desafios que foram encontrados, as barreiras que foram sendo quebradas ao longo desse processo e também quais são as perspectivas que estes surdos têm para o futuro. Ele é um exemplo”, concluiu.

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